Por Geliane Gonzaga
Muitas
pessoas me perguntam sobre a linha da esquerda dentro da nossa
Umbanda, pois é a linha que sem dúvida assusta algumas pessoas,
dando uma visão de “coisa do mal” aos que não a conhece. Sempre
que me perguntam sobre a esquerda, respondo com outra pergunta: -Você
tem tempo? Não gosto e acredito que não dá pra explicar sobre a
esquerda com uma simples frase. Nossa Umbanda não tem dogma, ou seja
não há verdades absolutas, a Umbanda está sempre em constante
evolução recebendo influências de diversas tendencias e
pensamentos e assim sendo, a visão que aqui passo é a minha visão,
meu entendimento, que pode ser diferente de outras pessoas, e que não
significa que será a minha visão pra sempre, pois me considero
engatinhando ainda nesse universo religioso e claro, amanha posso
rever conceitos ou incluir novos na formação de minha crença. Na
vida somos eternos aprendizes, assim como nossos irmãos que
manifestam em nossas correntes também são, pois eles mesmos fazem
questão de afirmar que estão assim como nós buscando sua evolução,
essa sim, sempre eterna e que galgamos degrau por degrau na direção
de nosso pai maior.
Para
explicar quem, e o que é a esquerda é necessário voltar na gênese,
no início de tudo. Segundo a crença Africana, na qual eu adoto por
achar muito lógica, quando Deus pensou em criar tudo, esse tudo
surgiu primeiro em seu pensamento. Somos assim também, a ideia vem
na nossa cabeça antes de exteriorizá-la e colocá-la em prática,
isso é até mesmo bíblico (somos a imagem e semelhança de Deus);
assim quando Deus imaginou o todo, surgiu esse todo em seu pensamento
primeiro, tente compreender, antes da criação só existia o vazio
absoluto. Essa concepção de vazio absoluto é difícil de ser
entendida. Imaginamos um balde vazio. Na realidade ele não está
vazio, pois o mesmo está “recheado” e cheio de oxigênio e
outros gases da atmosfera, é um vazio relativo, absoluto não existe
nada, nem mesmo a sutilidade da atmosfera. Assim Deus criou o
primeiro orixá, EXU, o dono do espaço absoluto, onde tudo que caia
nesse domínio tinha por consequência sua desintegração, e que
por ser um espaço absoluto e infinito permitiria ser a base da
construção universal., já que nada existe no espaço absoluto.
Pronto, tinha ai Deus criado a possibilidade de “espaço” ou
lugar analogicamente falando as condições para que de fato
iniciasse a criação do universo. Eu um segundo momento, Deus inicia
a criação concreta das coisas, tendo origem nesse momento o segundo
Orixá, Oxalá, esse sim senhor absoluto de toda a criação. Mas
surge ai um problema, tudo que estaria no domínio de Oxalá poderia
se desintegrar no espaço absoluto da criação, afinal essa é a
natureza de Exu, então o pai maior, criou um acordo que Oxalá,
senhor da criação permanecia a sua direita, e ali criaria o
universo, e a sua esquerda ficaria o Exu, extinguindo tudo que caísse
em seus domínios. Essa rápida “historinha” é fundamental para
entender o trabalho da esquerda, pois é da natureza dos Exus essa
capacidade de dissipação de coisas e energias, daí seu grande
poder de descarrego, pois as energias geradas que não são boas no
nosso terreiro e no nosso dia a dia, Exu joga em seus domínios e
dissipa por completo. A Umbanda se organiza em arquétipos, isso não
é novidade pra ninguém (Pretos Velhos, Baianos, Caboclos etc), as
entidades que estão nos terreiros e apresentam como esquerda, também
estão em arquétipos. Os espíritos que foram pessoas que caminharam
muito tempo pela estrada do mal, vão com o tempo perdendo suas
características originais em que foram criados por Deus. As mazelas
provocadas por eles mesmos em suas consciências são imensas, ao
ponto que é chegado o momento que precisam se “resetar”, voltar
ao nada e mudar o rumo de sua caminhada agora direcionada ao bem.
Esses espíritos são em um primeiro momento exunizados, ou seja, tem
todo o mal que estão dentro de sí dissipados e assim podem voltar
ao caminho da evolução pelo trabalho voltado ao bem. Veja a
maravilha de nosso amado Deus, que mesmo que, o seu filho errou por
uma infinidade de encarnações ao longo dos seculos em sua
trajetória de vida do espírito imortal, Deus permite que seu fardo
de erros seja absorvido pelo mistério Exu e esse tenha condição de
voltar ao caminho do bem. Pra mim, não existe exemplo maior da
passagem bíblica do filho pródigo depois de grande erro. Esses
espíritos exunizados que se apresentam em nossos terreiros são
irmãos que buscam sua evolução depois de imensos sofrimentos que
carregam em si devido ao sofrimento causado no outro, e por estar
sobre a influencia do Orixá Exu, carregam em seus poderes a
capacidade de exterminar energias pesadas e ruins, dando auxílio a
nós que os procuramos a pedir auxílio. De nada tem de demônios ou
coisa do gênero, o que existe por ai, são kiumbas que se utilizam
do nome forte de Exu e se apresentam pra fazer o mal, não são Exus,
e sim farsas nas quais nossos verdadeiros guardiões estão a nos
proteger. Esse trabalho de descarrego de energias ruins, tipica do
Orixá Exu e lógico, de espíritos que apresentam as características
desse Orixá em nossos terreiros é fundamental para nos dar
equilíbrio sobre as energias pesadas e ruins, e fundamental para
afastar de nós influências que nos tire da estrada do bem. Há
terreiros em que se apresentam de branco como as linhas de direita,
não importa a questão de vestimentas e afins, talvez seja mais
importante a nós do que a eles, mas eu particularmente gosto de suas
vestimentas e afins bem definidos em um arquétipos forte e
totalmente diferente da Direita. Em resumo, deixe seus pensamentos
ruins ser extirpados por nossos amados trabalhadores da esquerda. Vá
ao terreiro em dia de esquerda com pensamento de mudança, vá
disposto de coração e alma a deixar nossos guardiões fazer o que
eles melhor fazem, dar a nós a condição de reflexão e por
conseguinte a volta ao caminho do bem. Não menospreze os trabalhos
de nossos amigos de esquerda nem renegue suas funções a afazeres
menos importantes, como atender nossas vaidades. A vida de nossos
irmãos desencarnados que estão a vagar sem rumo seria e estaria
muito mais perigosa e dolorida sem o Sr. Tranca Ruas das Almas a
proteger aquele que tem merecimento das dores e do frio das ruas,
lugar que não oferece aconchego nem muito menos a confiança
sincera, a amizade típica da família que fornece vínculos
positivos. A dor e o clima encontrados nos velórios, nos momentos da
despedida do corpo físico, as energias de revolta, ódio e rancor,
seria muito mais prejudicial a todos se o Sr.Marabá não estivesse
nesse ambiente de dor a conter e dissipar o que é possível. As
lamúrias e as energias pesadas provocadas por espíritos
inconformados e sofredores seriam muito prejudiciais a todos se o Sr.
Caveira,ou outro responsável não as dissipasse nos cemitérios.
Exu, resgata da lama, Exu é esperança de vida nova, Exu é
vitalidade, Exu é providencia divina.
Laroyê
Exu, que venha nossa primeira esquerda do ano.
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