quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Mediunidade e Evolução

       Por Geliane Gonzaga

     A mediunidade sempre acompanhou o homem desde os tempos remotos. A história nos mostra hábitos nas mais variadas culturas e momentos históricos em que a mediunidade se fez presente de diferentes formas. Ao observar as civilizações antigas e as experiencias que tais civilizações e povos vivenciaram, é possível observar que várias cerimonias e atos são resultado de mediunidade, as vezes sutil, as vezes mais explícita mas sem dúvida a espiritualidade e claro, a mediunidade sempre esteve ali a colaborar com o crescimento e a evolução dos que vivem experiencias na carne. Os antigos Gregos, principalmente os Atenienses, tinham por costume a consulta aos oráculos antes de tomarem decisões de destaque. Ali havia mediunidade. Os rituais do Xamanismo nas sociedades indígenas pré- colombianas e africanas da sinais claros de mediunidade. Os antigos Hinduístas e Budistas contavam com orientações divinas, enfim, a mediunidade sempre existiu na história humana de uma maneira ou outra, adaptada a suas realidades e culturas, e principalmente ao grau de interpretação e compreensão de cada povo. Da mesma maneira a figura do médium sempre esteve presente nesses processos. O Pajé, chefe ou sacerdote era responsável pela religiosidade no Xamanismo, alguns tinham a capacidade de ler os oráculos na Grécia antiga e assim por diante. Mesmo que o termo Médium não era conhecido ou utilizado, havia um ser encarnado que fazia esse tipo de contato em maior ou menor grau com a espiritualidade e trazia de lá, ensinamentos e reflexões na maneira de agir dos membros dessa comunidade. A historiografia e a arqueologia hoje nos traz relatos interessantes em recentes estudos sobre o início da era Cristã. Saulo,soldado romano implacável na perseguição dos cristãos, em certa ocasião teve um encontro com o Cristo (bem após a crucificação) na estrada que ia até Damasco e ali, se converteu ao cristianismo adotando o nome de Paulo de Tarso. Jesus usou da mediunidade de Saulo para proporcionar tal encontro e transformá-lo em Paulo. O próprio encontro de Jesus com os discípulos mais próximos, após a crucificação foi um episódio mediúnico. Para melhor exemplificar tal fato recorreremos aos recentes estudos sobre a organização da sociedade romana, pois tal conceito sempre gera muita polêmica.
A crucificação era a forma de execução do Império Romano na época, assim como temos nos dias atuais a cadeira elétrica ou injeção letal em alguns estados americanos. Por curiosidade apenas, a causa mortis da crucificação é asfixia. O fato do peso do corpo sustentado pelos braços abertos faz com que a musculatura toráxia pressione a traqueia causando asfixia. Mas voltando ao assunto, os romanos crucificavam todos aqueles que eram contra ou questionavam o império, e lógico, o cristianismo fazia isso com grande eficiência. Assim, houve épocas de invasões e conquistas de novas terras em que os romanos crucificaram 10 mil pessoas por semana para acabar com a resistência do povo conquistado, e era política de estado de Roma que os campos de crucificação ficassem nas redondezas das áreas urbanas e se possível em um monte ou elevação afim de todos que passassem pelo local visualizava tal campo de horror afim de servir de exemplo. Fazia parte também de tal procedimento que guardas guardassem o local constantemente para reprimir qualquer tentativa de retirada de corpos, que eram decompostos ali, na cruz com as intemperes do clima e a ação de bactérias e abutres. Isso justifica o fato de tão pouco se encontrar a respeito de fósseis do período, pois essa forma de atuação não permitia que sobrasse grandes provas de restos mortais. Sendo assim, o encontro com os discípulos dias após a crucificação é um episódio tipicamente mediúnico, mas em um momento que mediunidade não era um termo conhecido ou utilizado.
Muitos séculos depois na França Allan Kardec traz a luz do mundo o conhecimento dos espíritos com sua obra, ai sim, através dos espíritos aparece o termo mediunidade para explicar fenômenos antigos e inexplicáveis narrado pela história. Allan Kardec e sua doutrina foi bem aceita nas altas rodas da sociedade europeia, mas não teve a mesma inserção na realidade da sociedade brasileira, com sua grande mestiçagem e com forte influencia das culturas negras e indígenas locais , alem de seu discurso muito erudito para aquelas condições brasileiras da época, não abarcava dentro do espiritismo certos anseios e principalmente linguagem da sociedade brasileira. Assim, 1908, apenas poucas décadas após o fim da escravidão (1888), através da mediunidade do jovem Zélio Fernandino de Morais, Padre Jesuíta morto pela inquisição católica na Europa, se apresenta com o nome de Caboclo das Sete Encruzilhadas e funda a Umbanda, uma religião que unia em sua base os excluídos da sociedade e principalmente do Espiritismo, o negro e o índio, com respeito a sua cultura e linguajar e mensagem próprio desse povo humilde, que mais tarde, abarcaria dentro da religião outros humildes e excluídos, os sertanejos na figura dos Baianos e Boiadeiros, assim como o “povo do mar “, os Marinheiros. A linguagem na transmissão dos ensinamentos, ou seja, a forma mediúnica fez com que a religião que pregava a caridade e o amor fosse logo de imediato uma luz no caminho desse povo sofrido, miscigenado e excluído do Brasil da época. Mas a sociedade evolui, e lógico a mediunidade, ou o modelo de transmissão das mensagens também evolui. Seria muita ingenuidade, mas muita mesmo, achar que hoje em dia a espiritualidade com toda a sua luz, conhecimento e compreensão, não adaptassem as mudanças da sociedades. Veja bem, se o próprio termo mediunidade surge com Kardec e as manifestações mediúnicas ocorriam muito antes, não há como negar uma mudança na mediunidade com o decorrer do tempo. Seria muita ingenuidade acreditar que entidades de luz não conhecessem mudanças tecnológicas como internet e televisão. Imagine a seguinte situação. Vamos ao centro, conversamos com a entidade, pedimos a sua proteção e recebemos a informação que mais tarde tal entidade fará uma visita e limpeza em nossa casa. Ai chegamos em casa, firmamos uma vela, pedimos sua proteção e ao cair da noite recebemos a visita da entidade em nossa casa, e ali, em alta madrugada alguém da casa está a estudar na internet sozinho, situação que a entidade com certeza verá e acharmos que tal entidade não conhece internet. Ora, me desculpe quem não concordar, mas todos nós Umbandistas temos a certeza que a entidade tem uma evolução e conhecimento maior que o nosso, certo? Sendo assim, é inconcebível crer que um espírito de luz saiba menos que nos seja qual assunto for. Um dia, vendo um vídeo da série Dialogo com os Espíritos, que adoro, vi um médium incorporado com o grande Exu Marabô que disse: “- Eu não preciso dizer palavrão ou ser mal educado pra provar que sou quem sou. Muito menos forçar as cordas vocais do médium para mudar a voz. Quem não reconhecer que aqui tem uma entidade por sua mensagem, é melhor estudar. Quer espetáculo? Vá ao teatro.” Está certo ele. A internet, livros, textos e tantos outros recursos estão ai pra nosso próprio bem. É necessário atualização dos Umbandistas e não ficar presos a velhos conceitos. Como me disse uma vez o Boiadeiro Seu Zé Raimundo que tenho o imenso prazer de trabalhar comigo: - “ A estrada está ai na sua frente. Pés parados não pegam a estrada”. Eu tive o privilégio de conhecer pessoalmente as reuniões do Chico Xavier em Uberaba. A energia era fabulosa, e ele incorporado e não era do mesmo jeito, mesmo tom de voz, mesma suavidade de movimentos, mesmo amor nos olhos. Precisamos estudar mais, ter menos achismo, e ser menos donos da verdade.

Todas essas reflexões e alguns estudos me levam a algumas conclusões. A mediunidade muda com o tempo. Aquela mediunidade totalmente inconsciente de antes, realizada por médiuns que se recusam a se atualizar vai dando lugar a uma mediunidade mais parceira do médium, semiconsciente ou totalmente consciente dependendo do grau de estudo, veja bem, estudo, e não evolução, não misture as palavras, do próprio médium. E por estudos que já fiz, não muito distante será o tempo da mediunidade ser intuitiva. Que bom essa mudança que coloca o médium não como um instrumento de carne, mas parte de um processo que ele mesmo aprende constantemente com seu guia, mesmo quando esse auxilia a outros. O atendimento espiritual realizados nos terreiros NÃO SÃO TODOS IGUAIS. Conhecer um médium/ entidade e depois outro não é falta de confiança a entidade. É trabalhos e características diferentes. Ou não é uma verdade que tem médium/entidade que faz e conhece trabalhos magísticos; outros ainda conhecem ervas em profundidade; outros tem o dom de aconselhar; outros conhecem Orixás como poucos. Não há mal em passar em várias entidades. Temos que corrigir isso em nossos terreiros não sendo preconceituosos e principalmente respeitando a individualidade de cada um da assistência e de cada médium/entidade. Dedicação, estudo e principalmente bom senso é fundamental a todos que compõe uma casa religiosa para que a caridade atinja seu verdadeiro objetivo. O bem de todos, assistidos e médiuns. Seremos mais humildes, não modifiquemos nosso padrão energético e vibracional por pouca coisa. Reflitamos...  

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