Por Geliane Gonzaga
A mediunidade sempre acompanhou o homem desde os tempos remotos. A
história nos mostra hábitos nas mais variadas culturas e momentos
históricos em que a mediunidade se fez presente de diferentes
formas. Ao observar as civilizações antigas e as experiencias que
tais civilizações e povos vivenciaram, é possível observar que
várias cerimonias e atos são resultado de mediunidade, as vezes
sutil, as vezes mais explícita mas sem dúvida a espiritualidade e
claro, a mediunidade sempre esteve ali a colaborar com o crescimento
e a evolução dos que vivem experiencias na carne. Os antigos
Gregos, principalmente os Atenienses, tinham por costume a consulta
aos oráculos antes de tomarem decisões de destaque. Ali havia
mediunidade. Os rituais do Xamanismo nas sociedades indígenas pré-
colombianas e africanas da sinais claros de mediunidade. Os antigos
Hinduístas e Budistas contavam com orientações divinas, enfim, a
mediunidade sempre existiu na história humana de uma maneira ou
outra, adaptada a suas realidades e culturas, e principalmente ao
grau de interpretação e compreensão de cada povo. Da mesma maneira
a figura do médium sempre esteve presente nesses processos. O Pajé,
chefe ou sacerdote era responsável pela religiosidade no Xamanismo,
alguns tinham a capacidade de ler os oráculos na Grécia antiga e
assim por diante. Mesmo que o termo Médium não era conhecido ou
utilizado, havia um ser encarnado que fazia esse tipo de contato em
maior ou menor grau com a espiritualidade e trazia de lá,
ensinamentos e reflexões na maneira de agir dos membros dessa
comunidade. A historiografia e a arqueologia hoje nos traz relatos
interessantes em recentes estudos sobre o início da era Cristã.
Saulo,soldado romano implacável na perseguição dos cristãos, em
certa ocasião teve um encontro com o Cristo (bem após a
crucificação) na estrada que ia até Damasco e ali, se converteu ao
cristianismo adotando o nome de Paulo de Tarso. Jesus usou da
mediunidade de Saulo para proporcionar tal encontro e transformá-lo
em Paulo. O próprio encontro de Jesus com os discípulos mais
próximos, após a crucificação foi um episódio mediúnico. Para
melhor exemplificar tal fato recorreremos aos recentes estudos sobre
a organização da sociedade romana, pois tal conceito sempre gera
muita polêmica.
A crucificação era a forma de execução do Império Romano na
época, assim como temos nos dias atuais a cadeira elétrica ou
injeção letal em alguns estados americanos. Por curiosidade apenas,
a causa mortis da crucificação é asfixia. O fato do peso do corpo
sustentado pelos braços abertos faz com que a musculatura toráxia
pressione a traqueia causando asfixia. Mas voltando ao assunto, os
romanos crucificavam todos aqueles que eram contra ou questionavam o
império, e lógico, o cristianismo fazia isso com grande eficiência.
Assim, houve épocas de invasões e conquistas de novas terras em que
os romanos crucificaram 10 mil pessoas por semana para acabar com a
resistência do povo conquistado, e era política de estado de Roma
que os campos de crucificação ficassem nas redondezas das áreas
urbanas e se possível em um monte ou elevação afim de todos que
passassem pelo local visualizava tal campo de horror afim de servir
de exemplo. Fazia parte também de tal procedimento que guardas
guardassem o local constantemente para reprimir qualquer tentativa de
retirada de corpos, que eram decompostos ali, na cruz com as
intemperes do clima e a ação de bactérias e abutres. Isso
justifica o fato de tão pouco se encontrar a respeito de fósseis do
período, pois essa forma de atuação não permitia que sobrasse
grandes provas de restos mortais. Sendo assim, o encontro com os
discípulos dias após a crucificação é um episódio tipicamente
mediúnico, mas em um momento que mediunidade não era um termo
conhecido ou utilizado.
Muitos séculos depois na França Allan Kardec traz a luz do mundo
o conhecimento dos espíritos com sua obra, ai sim, através dos
espíritos aparece o termo mediunidade para explicar fenômenos
antigos e inexplicáveis narrado pela história. Allan Kardec e sua
doutrina foi bem aceita nas altas rodas da sociedade europeia, mas
não teve a mesma inserção na realidade da sociedade brasileira,
com sua grande mestiçagem e com forte influencia das culturas negras
e indígenas locais , alem de seu discurso muito erudito para aquelas
condições brasileiras da época, não abarcava dentro do
espiritismo certos anseios e principalmente linguagem da sociedade
brasileira. Assim, 1908, apenas poucas décadas após o fim da
escravidão (1888), através da mediunidade do jovem Zélio
Fernandino de Morais, Padre Jesuíta morto pela inquisição católica
na Europa, se apresenta com o nome de Caboclo das Sete Encruzilhadas
e funda a Umbanda, uma religião que unia em sua base os excluídos
da sociedade e principalmente do Espiritismo, o negro e o índio, com
respeito a sua cultura e linguajar e mensagem próprio desse povo
humilde, que mais tarde, abarcaria dentro da religião outros
humildes e excluídos, os sertanejos na figura dos Baianos e
Boiadeiros, assim como o “povo do mar “, os Marinheiros. A
linguagem na transmissão dos ensinamentos, ou seja, a forma
mediúnica fez com que a religião que pregava a caridade e o amor
fosse logo de imediato uma luz no caminho desse povo sofrido,
miscigenado e excluído do Brasil da época. Mas a sociedade evolui,
e lógico a mediunidade, ou o modelo de transmissão das mensagens
também evolui. Seria muita ingenuidade, mas muita mesmo, achar que
hoje em dia a espiritualidade com toda a sua luz, conhecimento e
compreensão, não adaptassem as mudanças da sociedades. Veja bem,
se o próprio termo mediunidade surge com Kardec e as manifestações
mediúnicas ocorriam muito antes, não há como negar uma mudança na
mediunidade com o decorrer do tempo. Seria muita ingenuidade
acreditar que entidades de luz não conhecessem mudanças
tecnológicas como internet e televisão. Imagine a seguinte
situação. Vamos ao centro, conversamos com a entidade, pedimos a
sua proteção e recebemos a informação que mais tarde tal entidade
fará uma visita e limpeza em nossa casa. Ai chegamos em casa,
firmamos uma vela, pedimos sua proteção e ao cair da noite
recebemos a visita da entidade em nossa casa, e ali, em alta
madrugada alguém da casa está a estudar na internet sozinho,
situação que a entidade com certeza verá e acharmos que tal
entidade não conhece internet. Ora, me desculpe quem não concordar,
mas todos nós Umbandistas temos a certeza que a entidade tem uma
evolução e conhecimento maior que o nosso, certo? Sendo assim, é
inconcebível crer que um espírito de luz saiba menos que nos seja
qual assunto for. Um dia, vendo um vídeo da série Dialogo com os
Espíritos, que adoro, vi um médium incorporado com o grande Exu
Marabô que disse: “- Eu não preciso dizer palavrão ou ser mal
educado pra provar que sou quem sou. Muito menos forçar as cordas
vocais do médium para mudar a voz. Quem não reconhecer que aqui tem
uma entidade por sua mensagem, é melhor estudar. Quer espetáculo?
Vá ao teatro.” Está certo ele. A internet, livros, textos e
tantos outros recursos estão ai pra nosso próprio bem. É
necessário atualização dos Umbandistas e não ficar presos a
velhos conceitos. Como me disse uma vez o Boiadeiro Seu Zé Raimundo
que tenho o imenso prazer de trabalhar comigo: - “ A estrada está
ai na sua frente. Pés parados não pegam a estrada”. Eu tive o
privilégio de conhecer pessoalmente as reuniões do Chico Xavier em
Uberaba. A energia era fabulosa, e ele incorporado e não era do
mesmo jeito, mesmo tom de voz, mesma suavidade de movimentos, mesmo
amor nos olhos. Precisamos estudar mais, ter menos achismo, e ser
menos donos da verdade.
Todas essas reflexões e alguns estudos me levam a algumas
conclusões. A mediunidade muda com o tempo. Aquela mediunidade
totalmente inconsciente de antes, realizada por médiuns que se
recusam a se atualizar vai dando lugar a uma mediunidade mais
parceira do médium, semiconsciente ou totalmente consciente
dependendo do grau de estudo, veja bem, estudo, e não evolução,
não misture as palavras, do próprio médium. E por estudos que já
fiz, não muito distante será o tempo da mediunidade ser intuitiva.
Que bom essa mudança que coloca o médium não como um instrumento
de carne, mas parte de um processo que ele mesmo aprende
constantemente com seu guia, mesmo quando esse auxilia a outros. O
atendimento espiritual realizados nos terreiros NÃO SÃO TODOS
IGUAIS. Conhecer um médium/ entidade e depois outro não é falta de
confiança a entidade. É trabalhos e características diferentes. Ou
não é uma verdade que tem médium/entidade que faz e conhece
trabalhos magísticos; outros ainda conhecem ervas em profundidade;
outros tem o dom de aconselhar; outros conhecem Orixás como poucos.
Não há mal em passar em várias entidades. Temos que corrigir isso
em nossos terreiros não sendo preconceituosos e principalmente
respeitando a individualidade de cada um da assistência e de cada
médium/entidade. Dedicação, estudo e principalmente bom senso é
fundamental a todos que compõe uma casa religiosa para que a
caridade atinja seu verdadeiro objetivo. O bem de todos, assistidos e
médiuns. Seremos mais humildes, não modifiquemos nosso padrão
energético e vibracional por pouca coisa. Reflitamos...
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